Publicado em a viajante das estrelas, Reflexão

[AVDE#3] Sobre resenhas e parcerias

Pode parecer óbvio, mas acredite, não é. 

Existem muitos blogues no mundo, sobre vários assuntos: moda, beleza, roteiros de viagem, poesia, música, entretenimento, didáticos, LITERÁRIOS etc.

É sobre os literários que desejo deixar uma reflexão… Humilde reflexão.

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Sobre a Páscoa de Sal

Enquanto a maioria das pessoas estava com a boca na botija de doces, chocolates e brinquedos, eu  e minha família, passamos uma Páscoa diferente.

Você já ouviu aquela expressão “tome um doce pra adoçar sua vida”?  Pois é, aprendi com um amigo que a melhor resolução vem da água salgada, seja ela mar, suor ou lágrimas.

Pois bem, passamos nossa Páscoa na praia, sem ovos de chocolate, sem bombons e derivados.

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Educação vem de berço!

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Recentemente, a empreendedora escritora Camila Deus Dará, republicou a foto ao lado, comentando sobre o fato de um pai, irritado pelo fato do filho “só querer saber de ler”, usando de sua ira, depredou algumas obras literárias dentre elas, os livros da referida escritora. 

O meu objetivo aqui é só levantar a questão da falta de cultura, educação e cidadania à que estamos chegando. Seja lá qual for o motivo justo ou injusto, não cabe a mim ser juíza, creio que destruir obras literárias não fará o filho entender alguma mensagem positiva que, talvez, no íntimo desse pai, exista. 

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Publicado em Minha Prosa Poetica, Reflexão

Hora de Mudanças

Eu sempre fui um tanto arredia com mudanças.

Talvez por minha sempre e costumeira acomodação e apego total com a zona de conforto!

Pensando agora, isso se explica pelo fato de ter nascido de nove meses e quinze dias (risos!). Fiquei com pena da minha mãe, agora…

Voltando…

Mudar sempre requer esforço, dedicação e um deslocamento, uma ação. Exige que algo seja feito para que as coisas comecem a mover-se de forma diferente da costumeira. Isso é mudar.

Lembrando … um professor (Paulão!) da aula de Organização Industrial, curso técnico em segurança do trabalho. O ano: 1997! Viajei longe, hein?

O Paulão, disse em uma das aulas que ‘não se consegue obter um café diferente, usando-se a mesma receita todas as vezes que essa prática é realizada’ (Sic!). Parece simplicista o exemplo, mas digo que é muito oportuno!

Todas as vezes que passo um café, lembro-me dessa frase! De fato, para se conseguir uma mudança no produto final, é necessário mudar algo em seu processo fabril. Ihhh!

Sim, necessário investir um tempo. Pensar, calcular, projetar, desenvolver e aplicar, fazendo correções que se façam necessárias.

“Mas o que você quer dizer com isso’, vocês podem pensar nesse exato momento!

Quero dizer que reclamar da vida é fácil. Não requer muito esforço . Basta apenas abrir a boca e falar desordenadamente, ocupando-se apenas de buscar em quem colocar a culpa de nossas vidas malfadadas ou não tão bem administradas.

O chefe injusto.

O cônjuge insatisfeito, sem motivo, claro!

Os filhos que perturbam.

O governo corrupto.

A família que não apoia.

A saúde que não anda lá aquelas coisas.

Os professores exigentes com prazos.

O relógio que não anda.

A poluição do ar.

A genética.

O clima.

O colega chato.

O pagamento atrasado.

A pobreza.

A riqueza.

O sim.

O não!

Tudo é um motivo para reclamar e esconjurar. Tudo aquilo que me tira da ‘zona de conforto’ é maravilhosamente orquestrado por mim mesma a fim de deixar-me exatamente onde estou e não queria estar!

Parece um paradoxo, para você?

A mim parece um tipo de sabotagem! Dessas orquestradas pelos melhores maestros e estrategistas de guerra! Para que querendo sair, não saiamos. Querendo mudar, não mudemos. Querendo transformar, murchemos!

E a causa parece externa, mas está onde sempre esteve e onde podemos alcançar, mas não com a mesma facilidade com que podemos reconhecê-la.

Era um texto de 20 linhas… Okay!? Okay.

Pare e pense quem é que tem regido sua vida? Quem é que tem sido o cérebro pensante desse microcosmo chamado (leia com o seu nome aqui) eu! Por que você faz o que você faz? O que motiva você? O que desperta seu desejo de permanecer e o que desperta seu desejo de prosseguir?

Se esperou por respostas… Sinto desapontar. Ainda procuro as minhas! E arrisco a dizer que as procurarei para todo o sempre, pois creio que sou movida pelas dúvidas e não pelas respostas 🙂

Boa semana.

 

 

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Vista cansada por Otto Lara Resende via Releituras

Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

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Publicado em Datas Especiais, Musicalidade, Reflexão

[QG CREATOR] Monstro é aquele que não sabe amar – Feliz dia das Crianças – Reflexão

Olá, leitores!

Imaginei uma dúzia de postagens legais para o dia das crianças, não postei qualquer uma delas. 

Lendo uma postagem nas redes sociais de um poeta querido, Andrade Jorge, meu pai ❤ Deparei-me com um samba-enredo que me representa. Apesar de não ser uma fã do estilo musical (se você também não é, não deixe isso impedir vc de ouvir e ler a letra) , a letra mereceu toda minha atenção e talvez mereça a tua também!

Sinopse: 

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de repudiar o que é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.

O ser criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente, e da ausência de ética e de limites, não foi reconhecido como um semelhante porque possuía aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.

A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?

Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade onde a desigualdade se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos, vitimada pelo abandono e que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças. ” LEIA MAIS…

Leia, ouça e reflita!

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A Sensualidade Dos Livros Impressos por Rodney Eloy

Olá, queridos leitores!!!

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Visitando um grupo num site de relacionamentos profissionais, encontrei uma descrição MARAVILHOSAMENTE romântica de nosso relacionamento “amoroso” com os livros ❤ !

 

 

 

 

 

Bora conferir?

 

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É só mais uma de blogueira!

Boa noite, pessoal!

Sim, eu sei! Dia 25 foi ontem!

Não, eu não estou atrasada em parabenizar meus amigos e parceiros escritores rsrs! Apenas quero expressar que o apoio à eles e ao seu trabalho deve acontecer no dia seguinte também e no seguinte e seguinte… 365 seguintes!

Eu, como blogueira e rabiscadora de poesias da vida e da alma, posso dizer que não é fácil manter sempre aquela chama acesa e enfrentar os “leões” diários, para que a literatura seja sempre a vencedora nessa batalha de gigantes, todavia sou infinitamente grata quando um escritor parceiro ou novo, lê uma postagem, elogia ou critica um comentário ou resenha, solicita uma divulgação ou mesmo traz aquela “injeção” de ânimo que todos precisamos, em algum momento da vida (eu sempre! rsrs).

É bastante trabalhoso dedicar tempo, capacidade e saúde em fazer o melhor pela literatura nacional, e isso é o básico para quem faz tudo com amor e dedicação!

A frase mais comum que ouço é: “Você só pensa nesse blog?”, “Você só vai a eventos de livros?”. Imagino como deve ser custoso para escritores dedicarem-se à escrita em tempo integral, mantendo família e trabalho (para dizer o básico) e na maioria das vezes um tanto triste frente às cobranças!

É surreal pensar em como administram todas as áreas da vida e ainda a escrita!

Uma grande amiga e escritora, Priscila Gonçalves (que recentemente lançou seu primeiro livro, Alys pela Editora Pendragon) disse que não saberia responder como consegue administrar casa, família, vlog, escrita, cuidados pessoais etc.

Eu disse, é custoso!

Mas, e o retorno de tudo isso?

Há quem pense que por trás de cada livro, cada lançamento, rolem rios de dinheirinhos! (caberia uma risada se não fosse trágico!) Não, querido leitor! Não acontece o esperado retorno financeiro, em 99% dos investimentos! Posso arriscar minha pele dizendo que nem mesmo o devido reconhecimento…

E então por quê continuamos?

“Ai, Lua, que discurso derrotista!”

Não, não!

É só para que a os leitores tenham ciência do quanto custa produzir cultura. Às vezes minha família pensa que passo horas em frente ao notebook, fazendo um ‘monte de nada’ rsrs. Só navegando… Uma postagem bem feita envolve pesquisa, reunião de material, adequação… Um livro também. É muito mais que sentar e escrever! E o Caderno da Lua é uma vitrine, onde exponho o melhor da literatura nacional, gratuitamente, diga-se!

Voltando à pergunta, então por que continuamos em frente? 

Quantas vezes passamos noites insones escrevendo ou preparando material, brindes, cartas, “mimos”, pensando em como arranjar isso ou aquilo para que os blogueiros, possam receber algum incentivo por ajudar a divulgar, sem pensar muito naqueles que estão lá somente pelos brindes…Por que continuamos?

Por que pensamos tanto em divulgar nosso trabalho, fazendo sorteios?

Por quê?

Vou  DESAFIAR meus amados amigos ESCRITORES E BLOGUEIROS responderem essa pergunta aqui nos comentários 🙂 com suas considerações e ao final farei uma outra postagem fechando esse tema!

Bora lá?!

Até breve

(continua…)

empurrand lapis

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REGRA DO MINUTO – por Pitacos e Achados

Olá, leitores !

Alguns leitores me relataram a dificuldade em arranjar um tempo para ler.

Hoje eu li essa matéria interessante no blog PITACOS E ACHADOS e penso que vem bem a calhar com o assunto da falta de tempo para leitura 🙂

Quem aceita esse desafio ?? Eu aderi 🙂


tempo-indo-embora

“Muitas pessoas vivem fazendo propósitos de mudança: prometem fazer exercícios todos os dias, ler todas as noites, ou ajustar de alguma forma o seu estilo de vida. A regra do minuto é um dos métodos que ajudam os propósitos a serem cumpridos.

No Ocidente, temos o péssimo hábito de tentar obter grandes mudanças rapidamente. Achamos que é uma questão de força de vontade e colocamos sobre os ombros algumas tarefas que, na verdade, somos incapazes de cumprir.”

“Apenas um hábito pode dominar outro hábito”.
 – Og Mandino –

Leia a postagem completa em PITACOS E ACHADOS 

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Um Relato Excepcional!

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A grande gafe eurocêntrica ou o desrespeito à Carolina de Jesus na casa da palavra ou isso não vai ficar assim.
Dois dias depois de participar do evento em homenagem à Carolina de Jesus, na Academia Carioca de letras, ainda estou sob os efeitos da curiosa e inesquecível cerimônia. Presidida pelo nosso querido Ricardo Cravo Albin, homem-pedra fundamental na luta e na ação da preservação do patrimônio cultural brasileiro, em especial da Música Popular Brasileira, em sua sabedoria antenada, incumbiu ao Martinho da Vila a tarefa de convidar uma mulher escritora para participar da de  cerimônia em homenagem à autora do contundente e histórico livro Quarto de despejo. Tudo ia muito bem. A sessão rolando com suas formalidades, seus associados, em sua maioria mulheres na platéia e público em geral, naquele fim de tarde de abril. Com honras foi apresentado por Marcus Vinicius Quiroga, o professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença, membro daquela academia e também um ex capitão combatente da ditadura que muito brigou naqueles duros anos, para que este homenageasse a escritora. Era o primeiro palestrante, o que introduziria e falaria sobre a obra de Carolina antes de mim, que não sou estudiosa da autora a nível de doutorado como muitos o fizeram e o fazem neste país. Estou mesmo bem longe disso pois a obra dela deve ser estudada na profundidade. Mas estava ali, olhos atentos e ouvidos disponíveis onde, quando chegasse a minha vez, eu destacaria as pérolas da literatura daquela ex-catadora de papel que, do meio da miséria nos traz notícias de seu olhar e da sua sensibilidade ao retratá-lo. Colhi o que me emocionava, imprimi e parti para o honroso convite. Agora estava ali, exposta ao que viria. Muitas coisas passavam na minha cabeça. Martinho da Vila e eu éramos na mesa os “parentes” culturais da homenageada e desse orgulho nos vestíamos.

          Ivan Proença começa elogiando a Carolina, o seu relato em Quarto de despejo enquanto traz um exemplar de 1966 nas mãos, uma raridade, publicado por iniciativa de Audálio Dantas, o jornalista que ao fazer uma reportagem na Fazenda de Canindé viu uma moradora catadora de papel, negra, protestando contra as injustiças e invasões na favela e ameaçando: “Vocês vão ver, vou botar todos no meu livro”. A palavra livro vindo assim da boca preta da pobreza, vindo aparentemente do improvável, despertou a curiosidade e aguçou as competências jornalísticas investigativas, sociológicas do sagaz profissional. E, de uma hora pra outra, a catadora de papel estava publicada, e publicada em 24 países. Assim, num átimo tal qual Caymmi nos trouxe a vida do pescador, Carolina traz para nós, com palavras, o clima, o ambiente diário dos perenemente excluídos nas favelas. Ia tudo muito bem no discurso do acadêmico até a hora em que, com a sagrada edição na mão, objeto de colecionador, diga-se de passagem, o homem brada, com aquele antigo desprezo que se e oferece às artes não brancas nesse eurocêntrico domínio , e afirma, seguro como um cientista: “Só tem uma coisa, isso não é literatura”. Estarreci. Teria me desligado? Ouvi mal? Não poderia ser da Carolina que ele falava. Era. “Isso pode ser um diário e há inclusive o gênero, mas, definitivamente, isso não é literatura”, continuou. “Cheia de períodos curtos e pobres, Carolina, sem ser imagética, semi analfabeta, não era capaz de fazer orações subordinadas, por isso esses períodos curtos”. E seguiu destituindo sem o menor constrangimento a internacional obra da homenageada.

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Fonte: Socialista Morena

        Meu Deus, inacreditável! Ela era o motivo da sua presença ali, tema de sua palestra, motivo da cerimônia, assunto daquele encontro, e conteúdo principal do mês dentro de um projeto em que a referida Academia homenageia escritoras. A próxima será Cecília Meireles. Aquilo complicou minha situação, porque me conhecendo sabia que não me calaria. Aos orixás da palavra invoquei por dentro para que minha reação não provocasse o que chamam de “barraco”. Que eu não fornecesse a antiga munição que costuma nutrir os argumentos dos conservadores, que se manifestam com “ela desceu o nível” e coisa e tal. Mas dava vontade. Aquilo, se não era uma piada de mau gosto, era o que era: Uma trágica demonstração de racismo sob o fenótipo de um argumento academista. Ele exigia dela, para ser literatura, um formalismo acadêmico do qual o sucesso de sua literatura pôde prescindir. Sua capacidade em produzir imagens sem as técnicas oficiais dos literatos é que faz a sua obra objeto de estudo de grandes pensadores.

Martinho da Vila me apresentou com carinho, me tirando das ideias de vingança que vinham em bandos do lado esquerdo do pensamento. Para me acalmar e não bater o tambor da intolerância numa hora delicada, iniciei dizendo o poema do Semelhante que deu nome ao meu primeiro livro, e que prega a igualdade na diversidade entre os seres. E prossegui dali: Se me perguntarem o que mais me incomoda no epidêmico e sistemático racismo direi que é o olhar que depositam sobre nós a proferir as mesmas mudas perguntas: “Como ousas? O que você está fazendo aqui? Você não sabe que aqui não é o seu lugar?”. Sem flagrante aparente mas intimidadora essa pergunta é feita com o olhar e não deixa dúvidas. Portanto, herdeira da coragem dessa mulher que no ano que nasci foi descoberta por escrever o seu olhar nos papéis que catava e os quais reciclava em cadernos, venho exaltar o seu escrito. Citei trechos de sua safra genial. Faca. Lâmina. Soco na boca do estômago: “Quem inventou a fome, são os que comem”. “Quem não tem amigo, mas tem um livro, tem uma estrada.”, “Fiz o café e fui carregar água, olhei o céu a Estrela Dalva já estava. Como é horrível pisar na lama. As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários”. E perguntei à essa altura à emocionada plateia: Isso não é literatura? Me desculpe, senhor Ivan Cavalcante Proença, o que Carolina Maria de Jesus fez chama-se Literatura e por isso estamos aqui, e por isso a tradução em tantas línguas, e por isso o maravilhoso livro Quarto de despejo que fez com que a referida autora fosse tema do Fórum das Letras de Ouro Preto, idealizado e concebido pela maravilhosa escritora Guiommar de Grammont, editora da melhor qualidade, conhecida como curadora de Feiras Literárias internacionais. Nesse fórum  foi lançado um livro em sua homenagem: Memorialismo e Resistência- estudos sobre Carolina Maria de Jesus.

Pensei comigo: Se o Ivan estiver certo, todo mundo é bobo, inclusive Guiomar, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. Gente que via a rara flor das letras que ela é. Mas isso eu não disse, só pensei.

Mesmo quanto às exigências do formalismo, eu discordo, senhor Ivan. Carolina, em seu diário, onde diz que “Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, produz uma riqueza imagética que alterna períodos longos com frases curtas e poderosas. Para mim ela deixou de ser a catadora da favela de Canindé para ser a narradora de Canindé. Uma gênia, a despeito de alguns erros de concordância, as manobras de sua narrativa, as construções sociológicas do seu olhar que ela transforma com seu muito bem aproveitado restrito repertório de palavras, a literatura que essa mulher pobre brasileira nos deixou é imensurável, ela tinha o dom. Conheço gente que terminou o ensino médio e ainda é incapaz de um bilhete decente. Uma mulher que tem que dar conta de várias bocas, que passa fome e escreve sobre isso, que cata papel nas ruas, no lixo, para vender depois de muito catar, quando começa a aparecer algum peso vendável, sem contar todo o serviço de casa, tudo por sua conta e risco, e que ainda encontra tempo para escrever sua miséria nos deixando cinquenta cadernos inéditos?! Ora, meu deus, isso só pode ser dom, aquilo que a gente tem inclinação, tendência, facilidade, mesmo excluída por conteúdo, por não ter tido acesso à escola, mesmo assim, ela foi onde raramente algum dos seus consegue ir. Seu sonho era ser professora e sua filha o é, não catadora de papel.

Carolina fez o bonde andar com a sua palavra. Não reproduziu a obra da escravidão. Como fazem muitos ainda hoje. 

           Na tarde que virou noite, o homem em questão pediu direito à replica depois de minha fala, e eu ainda segui pedindo para que a gente fizesse uma revisão para ver o quanto de racista se poderia ser mesmo sendo intelectuais, mesmo se achando na crista da onda do pensamento contemporâneo mundial. Aproveitei a ocasião para alertar que já se tornou insustentável o racismo entre pessoas ditas do bem, entre pensadores que põem a perder todo o seu conhecimento ao assumirem posturas racistas. Jogam pelo ralo o Foucault que leram, o Sartre, e fazem temer no túmulo Lima Barreto, Cruz de Sousa e Machado de Assis. Adverti à plateia que não fica mais bem ser racista, não pega mais bem, não combina com civilização evoluída, não está mais se usando, é demodê, é hitleriano! Querem que eu desenhe? Ainda lembrei aos interessados que ninguém devia ficar constrangido por ser herdeiro de um senhor de engenho ou feitor. Quem se envergonha do longo período da holocáustica escravidão negra brasileira, deve se apoiar numa verdade pouco dita: Haviam aqueles, e sempre haverá durante a história, que não suportavam a barbárie acontecida nos seus quintais, nas senzalas de suas casa. Não admitiam a tortura e a matança cotidiana dos negros nos bastidores da casa grande. Este crime cotidiano incomodou a muitos libertários da época: utópicos humanistas, sinhás que se apaixonavam pelos negões e com eles fugiam, gays, poetas, abolicionistas brancos, jovens e velhos de todo tipo tinham um lugar no quilombo e de lá lutavam pelo fim da escravidão. Portanto, os brancos que se incomodam com isso, lembrem que podem ter no sangue a herança de abolicionistas.

         Falei por muito tempo, avancei as horas, achei que era oportunidade de sacudir aquele coreto. Terminada a fala, felizmente tive as palavras dos nossos preciosos Ricardo Cravo Albin e do Martinho, autorizando o teor do que eu dissera, sem maiores danos para habitual cordialidade do lugar mas sem deixar passar, no entanto, que o que se sucedera ali foi uma grande gafe, para dizer o mínimo. Absolutamente confortável para o senhor Ivan que, encrustado no velho classicismo deixou claro e explícito aquele velho olhar que pergunta: “O que você está fazendo aqui?”. Foi isso que aquele senhor que não merece apresentar a Carolina Maria de Jesus por não estar à altura de entendê-la, de entender a sofisticada simplicidade de sua narrativa, por não respeitá-la, por discriminá-la e por representar assim as velhas vozes machistas, classistas e racistas que não conseguem engolir a presença de uma mulher, ex-catadora de papel, negra ainda por cima, nos incensados e vaidosos salões das academias. Não será simbólica essa atitude do avesso homenageador? Não representará sua grosseira atitude o olhar de desprezo de muitos neste país? Para o senhor Ivan, Carolina Maria de Jesus jamais deveria ter se recusado a ser o resto, a ser a nula e invisível voz. Que vergonha. Mas sua voz não morreu. Está viva e grita aqui.

Elisa Lucinda, outono, 2017.


Fonte: Página de Elisa Lucinda no Facebook, acesso em 29 de abril de 2017 às 15h35.