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[PÁGINAS DA LUA] O TREM DA UMA E NOVE DA PAULISTA- ANDRADE JORGE

BOM DIA, LEITORES!!

E essa tão enraizada paixão da Lua (Eu! rsrs)  por trens tem fundamento histórico-familiar. O avô, Benedicto Jorge, “seu DIDI” foi ferroviário e muitos dias de férias foram passados em sua casa “da ferrovia”. Dias lindos, dias maravilhosos da infância que ficaram guardados no baú da memória: pão amanhecido (“na chapa”, como a família se referia!), brincadeira de criança no quintal, fogãozinho de tijolos, panela de latinha, o papagaio da vizinha a chamar o nome da neta sempre que a avó a chamava para as refeições, desenhos assitidos na poltrona da sala, manhãs acordadas com o canto do galo, o avô voltando da jornada ferroviária sempre com um doce em mãos, o apito do trem e o som (MARAVILHOSO!) do “tetec-tetec-tetec”*.

(“tetec-tetec-tetec” é como eu me refiro ao som produzido pelos rodeiros nas emendas / juntas de dilatação dos trilhos)

E esse texto foi para agradecer a Deus por me permitir ser chamada de FERROVIÁRIA, aos meus amigos que sempre me servem de inspiração na ferrovia : Fabiano Ardito (amigo e maquinista da MRS ), Leandro Rezende (meu amor, gravador oficial dos sons que amo!, controlador de pátio na VL! ), Marcelo Jacomini ( amigo e maquinista na CPTM, apaixonado pela ferrovia), Márcio Chagas (amigo e maquinista na MRS), Roosevelt Louro (amigo e maquinista na CPTM),  Vanderlei Antonio Zago (“Zagolino”, amigo, membro da ABPF e nosso “poço de cultura ferroviária”) e ao meu pai Andrade Jorge, por sintetizar um amor em palavras poéticas, as quais compartilho abaixo:

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Fonte: Página do Facebook de Vanderlei Antonio  Zago com a legenda:”Trabalhando com Trindade, no trem de passageiros. Foto em Jundiaí-Pta. (Foto: autor Chico Trem)”

 

O TREM DA UMA E NOVE DA PAULISTA
TIN… TIN… TIN … LUZ VERMELHA NA ABOLIÇÃO,
CARRO, CHARRETE, LAMBRETA, GENTE, NADA SE MOVE,
NA PASSAGEM DE NÍVEL, ANTE A CANCELA: PARE, ATENÇÃO!
PORQUE VEM AÍ O TREM DA UMA E NOVE.
O MENINO NÃO SE IMPACIENTA, POIS
O TREM VEM LOGO, NÃO DEMORA,
SABE QUE NÃO É ANTES, NEM DEPOIS,
O UMA E NOVE CHEGA NA HORA.
TARRAN TARRAN, TARRAN TARRAN, SÃO OS RANGIDOS
DAS BITOLAS SOB AS RODAS DA COMPOSIÇÃO,
ECOS DE TEMPOS IDOS,
ACORDES DE UMA FERROVIÁRIA CANÇÃO.
LÁ VEM A MÁQUINA AZUL DA PAULISTA!
PIIII … SEU APITO, SEU SINAL,
PARA O MENINO O CANTO DA ARTISTA,
ERA O UMA E NOVE SEMPRE PONTUAL.
E COMO SE FOSSE UM DIÁRIO DESFILAR,
SEM QUE NADA MUDE OU RENOVE,
À MESMA HORA, MESMO TRECHO, A ESPERAR
O TREM DA UMA E NOVE.
O MENINO EXTASIADO
OS VAGÕES CONTA, UM A UM,
NA SUA ARITMÉTICA SEMPRE AFIADO
NÃO ESQUECE DE CONTAR NENHUM.
O TREM VAI DESLIZANDO,
UM, DOIS … DEZ, DOZE … DEZENOVE,
O MENINO IA CONTABILIZANDO,
O TOTAL DE VAGÕES DO UMA E NOVE.
A CADA VAGÃO O INFANTE VIBRAVA,
— “HOJE TINHA MAIS UM ENGATADO!”
E COM AUTORIDADE DECLARAVA:
— ” ERA O CARRO LEITO PARA O MAIS ABASTADO”.
E PASSA O VAGÃO RESTAURANTE,
COM ARES DE CARRO FINO,
MESA COM FLORES E GENTE ELEGANTE,
NADA É DESAPERCEBIDO AO OLHAR DO MENINO.
NOS VAGÕES DA SEGUNDA CLASSE, PESSOAS MODESTAS,
COM BANCO DURO, MAL AJEITADO,
E TUDO SE VIA PELAS JANELAS E ARESTAS,
MALAS, PACOTES, SACOLAS, GENTE, TUDO LOTADO …
OUTRO CARRO LOGO VEM,
COM PASSAGEIROS BEM ARRUMADOS,
É O PRIMEIRA CLASSE QUE CONTÉM
CORTINAS, ENCOSTO COM CAPAS E BANCOS ESTOFADOS.
A COMPOSIÇÃO ESTÁ NO SEU FINAL,
QUANDO ALGUÉM AO MENINO ACENA,
ESTE DE IMEDIATO RESPONDE AO SINAL,
E CONSIGO DIZ “AINDA HEI DE FAZER ESTA CENA!”
………………………………………………… (E O TEMPO PASSOU)
— UMA PASSAGEM, POR FAVOR,
A RESPOSTA ME COMOVE:
— NESTE HORÁRIO, NÃO SENHOR!
JÁ NÃO EXISTE MAIS O TREM DA UMA E NOVE.

Andrade Jorge

(Uma homenagem a meu pai Benedicto Jorge e a todos os ferroviários da Cia. Paulista de Estrada de Ferro.)

*Foto da capa By Leandro Rezende


Abraço da Lua 🙂

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Autor:

Poetisa da vida, Leitora por vontade, Ferroviária por destino, Rabiscadora de Cadernos, Apaixonada por Livros, pelos amigos, pela vida e filosóficamente dramática :) - Jundiaí - SP - Brasil ! #APOIOAUTORESNACIONAIS

3 comentários em “[PÁGINAS DA LUA] O TREM DA UMA E NOVE DA PAULISTA- ANDRADE JORGE

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