Publicado em Espaço do Leitor, Mural, Textos

[ESPAÇO DO LEITOR] CERTA ESTANTE – VANDO JUVENAL

Olá, leitores!

Esse é o texto enviado pelo meu amigo e correspondente Vando Juvenal, diretamente do Rio de Janeiro!

Vamos apreciar !?


certa estante vando juvenal
 Poeira, muita. Eu não sei aonde minha relação com os livros, os meus livros, vai parar. Quero dizer, na verdade, onde ela vai mudar para um recomeço, uns incrementos inventivos, algum inovar – coisas das quais, dizem as que entendem, que toda relação precisa pra se manter agradável e mesmo duradoura. Não penso que toda relação tenha de ser duradoura, tem umas que são até melhor que encontrem seu acabamento… Mas nisso não se inclui a minha com os livros. E é de bom tom que mesmo esses que ficam lá em cima da prateleira mais distante e desnuda sejam bem cuidados, talvez nem devessem estar assim tão expostos, no quarto e na sala e no braço do sofá. E eu deveria limpá-los, aspirá-los, acariciá-los, organizar cada grupo novamente: os não-lidos, os antigos, os best-sellers…

[DETESTO BEST-SELLERS, ATÉ MESMO A EXPRESSÃO!]

 Detesto best-sellers, até mesmo a expressão, mas na adolescência eu os perseguia. Os prêmios Nobel e Jabuti, os… Não. Eu não conhecia o Prêmio Jabuti, eu lia Harold Robbins e com toda minha lubricidade juvenil me entregava às expectativas de Os insaciáveis. Esse gênero é o que está mais empoeirado, mesmo sendo nas mais baixas prateleiras. É que não me apetecem mais, ou não tanto, pela dialética da relação teoria-prática. Há nobéis cuja premiação parece mesmo muito isenta, como é o caso de A pérola, de John Steinbeck ou, mais recentemente, O conto da ilha desconhecida, de José Saramago; não cabe dúvida, ao meu ver, sobre a qualidade dessas obras – e por via diversa, não possuo volumes de Paulo Coelho ou Augusto Cury em minha coleção milhar.
Um dos meus primeiros, bem volumoso, é O homem, de Irving Wallace, que minha tia Ana me deu junto com um thriller de sangue e morte desde a capa. Nessa época eu não comprava livros, nem ganhava, apesar de estar já na adolescência; vivia do que emprestava da biblioteca escolar e talvez já do Sesc. O homem era, até ali, o maior volume que eu teria lido, e ainda levei anos para abrí-lo. Valeu a pena abrir. Ele não é dos mais empoeirados porque está num canto tal que somente uma de suas faces fica exposta à vista do pó. Quanto ao olhar prévio, o último que obtive, muito limpo e com cheiro de livro novo, é Sejamos todos feministas, da aclamada Chimamanda Ngozi, conferencista requisitada e celebrada escritora nigeriana; tanto me interessou numa prévia análise, ao ponto de ter comprado três volumes de uma vez: doei um, emprestei dois que agora estão de volta à casa, temporariamente morando sobre um puff vermelho como sua capa, em forma de coração, e que minhas amigas insistem em pedir para elas. Doo livros, desde que os compre para isso; o puff, não!
 Dois autores me comovem e interessam profundamente, tanto que seus volumes são os mais bem cuidados de minha coleção: Isaac Asimov e Jorge Amado. Quero todos os livros que escreveram, e tenho mais obras do escritor baiano; mas como este escreveu bem mais títulos ficcionais que o russo, é em Asimov – contemporâneo de Wallace e do próprio Jorge Amado – autor americano de origem russa, que devo realizar o feito antes. Ele é considerado um dos pais, senão o pai da ficção científica, e sua contribuição é tão importante para a literatura que as chamadas três leis da robótica[1] saíram de suas páginas de ficção – acaso em que a vida imita de fato à arte, e com justa razão. A importância de Asimov é tal que com seu nome batizaram tanto um robô da Honda, o famoso ASIMO, quanto um asteroide, o 5020 Asimov. De Jorge Amado, o livro que mais amo é Tenda dos milagres, do qual possuo um volume da primeira edição de 1969, que não empresto. Tenho também volumes do grande Vargas Llosa, o mestre Graciliano Ramos… Acabo de me lembrar, preciso proteger Memórias do Cárcere! Esse é fruto de Paraty, da FLIP do ano passado. Assim como Madame Bovary, de Flaubert, limpíssimo ainda, no rack da sala, acompanhado de Mulheres, de Charles Bukowski. Esse foi escrito quando eu tinha um ano de idade, em 1978, quando o autor já contava quase sessenta anos de idade: também ele é da década de 1920. Li duas vezes Mulheres, mas Flaubert está na fila.
 Apesar dos quarenta ou cinquenta livros acumulados, à espera pela leitura, todo mês compro mais livros. Por isso não fui à bienal do Rio, para não acumular mais: sempre saio de lá com sacolas cheias, ia passar de quarenta pra sessenta num só dia. E ainda tenho idade pra achar que posso zerar a fila, mesmo comprando sempre, e quarenta livros não são tanta coisa, se eu me desligar um pouco das redes sociais. Além dos meus, pego sempre algo pra ler na biblioteca da escola em que trabalho, sendo o da vez Serafim Ponte Grande, de Oswald Andrade. Confuso, cheio de referências de época, enfeitado no francês em voga nos círculos intelectuais brasileiros do primeiro terço do século XX e apesar do Manifesto Pau-brasil, também de Oswald, e de sua Antropofagia, o que me agrada ao ponto de valer a leitura é a lubricidade esperta, de malandro, do protagonista e de seu secretário. Devo terminar de lê-lo em dois dias, no ônibus, a caminho do trabalho. Esse não ficará com poeira!
 A questão é que devo sacudir a preguiça e aspirar, limpar todos os livros o quanto antes. Uma das desculpas que emprego para me demorar é que estou em vias de me mudar de residência, e assim pretendo limpá-los antes de guardá-los nas caixas. Não é necessário, eu sei, aguardar a mudança, mas a preguiça é tanta…

[1] – Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

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Autor:

Poetisa da vida, Leitora por vontade, Ferroviária por destino, Rabiscadora de Cadernos, Apaixonada por Livros, pelos amigos, pela vida e filosóficamente dramática :) - Jundiaí - SP - Brasil ! #APOIOAUTORESNACIONAIS

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